Sabe aqueles dias que você acorda querendo chutar o pneu do carro, a porta do seu quarto e grunir de angústia até tirar todo aquele aperto do coração?
E ainda mais sentir uma sensação horrível e vergonhosa de poder falar todos os palavrões mais bizarros pra o seus pais, porque neste momento ainda dói toda e qualquer negação que eles poderiam ter tido com você na vida. E deu raiva por todos aqueles momentos que só querias que te escutassem ou ao menos pedissem desculpa por alguma palavra inoportuna que tenham dito num momento difícil.
E doer ainda mais o fato de haver pensado toda essa monstruosidade a respeito deles. Porque, afinal de contas cai a ficha de que são nossos pais: os seres que nos possibilitaram a experiência nesse mundo, que seriam capazes de levantar um carro para nos salvar, mesmo que não expressem tanto sentimento.
Muitas vezes é realmente difícil conceber a idéia de que podemos carregar sentimentos ruins em relação a pessoas importantes na nossa vida. Fingimos, nos iludimos, justifcamos, nos negamos. Com medo de sermos errados ou maus.
Contudo, não podemos negar a existência da raiva, do ódio, da tristeza. Sentimentos da mais baixa densidade humana e que integram profundamente a nossa natureza.
E, seguramente, não é porque os negamos ou os reprimimos que eles deixam de atuar. Ilusão.
Eles assumem o posto quando damos aquele grito no trânsito, quando brigamos com a garçonete porque a carne veio mal passada, ou quando o computador nao quer funcionar justo no momento que você estava querendo se distrair nos emails. Quando não em coisas piores: uma certa frigidez no relacionamento, falta de afetuosidade com os filhos, irmãos e por aí vai.
Não faço apologia ao ódio. Defendo a anatomia desse sentimento, a não-negação. Pois somente encarando-o de frente, descobrindo suas raízes, entendendo que ele não passa apenas de um ponto mal-resolvido, poderemos soltar a carga dos seus reflexos indesejados que nos causam tanta dor. Quem sabe assim, podemos ainda salvar inúmeros seres de nossos ataques de insensatez.
Que sejamos mais conscientes.
Encarar, Sentir e Dissipar.
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